SÃO CARLOS CLUBE

 Vista aérea de São Carlos, na década de 40  

A história de esforço, superação e vanguardismo que fizeram do São Carlos Clube um ícone da cidade

As máximas “o desafio motiva a mudança”, “a união faz a força” e “o esforço transforma sonhos em realidade”, apesar de clichês, nunca foram tão reais quanto na história do São Carlos Clube. O Clube, que celebra 70 anos de criação, é fruto de trabalho duro, abnegação e luta pela realização dos sonhos dos associados.

Nascido em condições adversas, enfrentando dificuldades desde seu começo, mas composto por pessoas que viam na instituição algo mais do que uma simples associação, o São Carlos Clube construiu, ao longo dos anos, uma história que se confunde com a do município que o abriga, uma vez que seus principais personagens fizeram parte do contexto histórico de formação da cidade.

 

O surgimento

O período era a década de 40. A II Guerra Mundial se aproximava do fim. Havia uma expectativa geral quanto ao desfecho dos combates na Europa entre as tropas “aliadas” e do “eixo”. Nessa época, os clubes sociais estavam proibidos de reunir seus associados em festividades fechadas ou abertas.

A proibição partia das autoridades federais, que impediam aglomerações por medida de segurança, principalmente depois que o Brasil entrou no conflito mundial. Devido ao grande número de imigrantes italianos residentes em São Carlos, a cidade era observada de perto pelas autoridades governamentais.

Entre 1938 e 1943, conforme registram as atas do então São Carlos Tênis Clube (que, após fusão com o Clube Comercial, daria origem ao São Carlos Clube), não foram registradas atividades no clube, que perdeu um grande número de associados.

No final de 1943 um grupo de associados, inconformados com o marasmo do Tênis Clube, resolveu, de comum acordo, promover a fusão com o Clube Comerciário de São Carlos. Leôncio Zambel (que depois viria a ser prefeito de São Carlos e dono da Rádio Progresso) era seu presidente, enquanto Aristides Pelicano presidia o Tênis Clube. Após várias reuniões, foi sacramentado o casamento dos dois clubes, num cenário neutro: o salão nobre da Prefeitura Municipal.

A data histórica: 9 de janeiro de 1944. A assembleia daquela tarde pôs em pauta não só a fusão, como também a apreciação do estatuto do novo clube e a eleição dos conselhos consultivo e deliberativo, além da diretoria executiva.

Durante a assembleia, o advogado Aldo de Cresci (um dos maiores juristas do Brasil e referência histórica na área), sugeriu que fosse escolhido, na ocasião, o novo nome do clube. João Marigo Sobrinho, então, apontou dois nomes: São Carlos Clube ou Clube Concórdia São Carlos. Prevaleceu o primeiro, por unanimidade.

 

O começo e um sonho

A primeira reunião de diretores do São Carlos Clube aconteceu no dia 23 de janeiro de 1944, no salão nobre do antigo Clube Comercial, na Avenida São Carlos. A preocupação inicial dos diretores foi, óbvio, gerar recursos para a nova sociedade. Foram estabelecidas novas mensalidades, além da atração de novos sócios, que viriam a subsidiar a construção de uma nova Sede social o clube.

Dentre os bens móveis e imóveis da recém-criada instituição estava o terreno onde, hoje, está construída a Sede Avenida. Ali, anteriormente, funcionava um rigue de patinação e um posto de gasolina. 

O grande desejo da nova diretoria e dos associados era providenciar um projeto de construção da Sede. E a reunião de diretores do dia 6 de fevereiro de 1944 marcou, de fato, o início desse sonho, com o anúncio da compra dos primeiros materiais de construção à serem utilizados na obra.

Em meio à efervescência do momento, porém, uma crise interna fez com que a gestão da primeira diretoria durasse apenas 3 meses. Por conta disso, a diretoria do São Carlos Clube foi dissolvida, de forma a facilitar o trabalho do Conselho da instituição.

A decisão da demissão da diretoria ocorreu em 11 de abril de 1944. Interinamente, Aldo de Cresci (eleito presidente do Conselho do Clube durante a crise) também assumiu sua presidência, até que fossem realizadas novas eleições, marcadas para 25 de abril de 1944.

Após o pleito, a nova diretoria eleita do São Carlos Clube, presidida por Aldo de Cresci, procurou dinamizar e dar sequência às obras da Sede da Avenida, criando uma comissão de construção que, em 26 de maio, apresentou o projeto arquitetônico com a planta definitiva da Sede: um prédio de dois andares, cuja execução foi prontamente aprovada. Para lançar a pedra fundamental da obra, foi convidado Juarez Bezerra, juiz da Comarca de São Carlos à época.

Apesar de enfrentar alguns problemas, as obras da Sede Avenida ganharam agilidade sob o comando de Aldo de Cresci (que pediu afastamento da presidência em 30 de junho de 1946, dando lugar ao seu vice, Armando de Almeida Salles).

 Sede Avenida em construção 

 

Concretização do sonho

Já sob o comando de seu terceiro presidente, Antonio Adolpho Lobbe (eleito em 27 de fevereiro de 1947, para o biênio 1947-1949), a construção da Sede do São Carlos Clube tomou novos rumos. Diante da diminuição na velocidade da obra, ocasionada pela dificuldade na captação de recursos para sua realização, foi realizada uma concorrência, afim de entregar a obra a uma empreiteira até seu término.

A conjuntura econômica do país, porém, impediu que essa proposta fosse levada adiante. Dessa forma, foi criada uma comissão interna no clube, que ficou responsável pela administração e construção da Sede. Essa nova gestão da construção da Sede animou os sócios, que passaram a adiantar mensalidades ao clube, sob forma de empréstimo a ser resgatado após a conclusão da obra.

Apesar de benéfico, esse expediente diminuiu o prazo para a conclusão da Sede e colocou pressão sobre a diretoria, que passou a gerir dívidas com fornecedores, operários e com os próprios associados.

Mais uma vez, a atuação dos sócios (responsáveis pela criação do São Carlos Clube) foi essencial para que o sonho da construção da Sede Avenida pudesse ser concretizado. Os associados abriram mão da restituição dos adiantamentos, doando os valores ao clube e devolvendo as promissórias emitidas. Além do esforço coletivo, um sócio do clube fez um empréstimo pessoal à instituição, aumentando ainda mais os recursos para a obra.

A injeção financeira fez com que a Sede fosse concluída, com fino acabamento e esmero na decoração. Assim surgiu o “majestoso da Avenida São Carlos”. A inauguração da Sede Avenida do São Carlos Clube se deu em 18 de setembro de 1948, numa cerimônia que incluiu a realização de um baile de gala e um show. Também em 1948 foi realizada a eleição da primeira Rainha do São Carlos Clube: Léa Rocha.

 

Os anos de Ouro e o Clube de Campo

Após a conclusão e inauguração da Sede de Campo, foi inaugurada uma nova era sociocultura em São Carlos, encabeçada pelo Clube. Tal era foi marcada pela realização de bailes de gala históricos; realização de diversos concursos, dos quais destacam-se a eleição da Rainha do São Carlos Clube; carnavais, que foram referência de festividade na região; assim como a realização de shows com diversos artistas da época.

Foi então que, em 1951, o então presidente Romeu Santini, em mais uma mudança, celebrou a fusão do São Carlos Clube com o Paulista Esporte Clube. A junção não alterou o nome do Clube e ainda fez com que fossem incorporados, à instituição, bens que pertenciam ao Paulista. Essa união, além de consolidar ainda mais o São Carlos Clube, definiu seu os rumos de seu futuro.

A fusão, oficializada em cartório no dia 21 de março de 1951, permitiu o início da estruturação da Sede de campo e deu a base para a consistência que o Clube possui nos dias de hoje. Um trabalho que todos reconhecem como fruto do entusiasmo do presidente Romeu Santini que, de imediato, iniciou uma série de obras na área encampada.

 

 

Foi de iniciativa dele a mudança de posicionamento do campo de futebol, a construção de arquibancadas cobertas e descobertas (que alavancaram o futebol de campo na cidade) e o maior empreendimento de todos: a edificação do primeiro ginásio coberto de esportes da cidade, o Ginásio João Marigo Sobrinho, inaugurado no dia 4 de novembro de 1952, com um jogo histórico do time de basquete do Clube. 

O time de basquete do São Carlos Clube, inclusive, que marcou época no esporte nacional. A equipe, que representava a cidade de São Carlos nos Jogos Abertos do Interior, conquistou o campeonato em 1955 em Piracicaba; o vice-campeonato em 1956 em Bauru; e um vice-campeonato em 1957 nos jogos de São Carlos, dentre outras importantes vitórias, que seguiram até os anos 70 (depois de um hiato, o basquete do Clube passou por outro período de destaque, entre os anos de 1980 até meados da década de 1990).

Devido à construção do ginásio, também, o clube participou do Primeiro Campeonato Paulista de Futebol de Salão, foi realizado no ano de 1957 e que contou com a participação de oito clubes. Isso sem contar os inúmeros torneios e jogos disputados nas outras modalidades, como vôlei, handebol, etc.

Fora o esporte, o ginásio João Marigo Sobrinho também se destacou como palco para a realização de eventos na cidade. Desde sua inauguração, abriga a contagem dos votos nas eleições para prefeito de São Carlos. Além disso, a edificação foi palco, durante décadas, para a realização de shows de grande porte de artistas como Gal Costa e Roberto Carlos.

Além do ginásio, a Sede de campo recebeu, ao longo dos anos, uma sucessão de obras, como: a construção da sauna, quadras de tênis, piscinas, prédios da secretaria social, restaurante, quadras de bocha, sala de ballet, mini campos de futebol society, iluminação do campo de futebol, dentre uma infinidade de outras melhorias, que fizeram com que o clube se colocasse na vanguarda do esporte e infraestrutura.

Todo esse esforço coletivo conduziu o São Carlos Clube ao patamar no qual ele se encontra hoje: uma instituição respeitada, com infraestrutura de ponta, exemplo de gestão consciente e de relevância histórico-social no município. Ao mesmo tempo, apesar dos seus 70 anos e de sua consolidação, o Clube ainda se espelha em sua história para, constantemente, crescer e continuar, intrinsecamente, ligado à história de São Carlos.